Tenho em mim muitas palavras que não me dissestes ainda Porquanto espero em vida as frases por ti guardadas
São sílabas sussurradas de páginas esperadas Pois que se invento enrêdos é porque não me dizes nada
E foi enquanto me amavas a caravela piava E uma aurora cantava versões de vozes ventadas
E outras mais que escutava os surdos da madrugada Só tu não dizias nada e nada me perguntavas
Na hora em que me beijavas teus olhos por onde andavam? Teus pensamentos e sonhos em que verões viajavam?
Se amou sem qualquer palavra é porque em mim não morava Mas em furtivas ilhargas, deserto de sualavra.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
foto Assis Melo
IMAGINO
Imagino línguas de cães em meu vestido Tocas meu corpo como se quebrasse um vidro Lençóis da noite são as águas quentes Que provocas com um beijo simplesmente
Imagino sombras secretas sobre um muro Quando me abraças contra o portão escuro A rara alfombra nos cobre de inverno E eis que alcanço a glória do inferno.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
NOITE MAGA
Andei contigo nas dunas Nas páginas das areias Pensei avistar sereias Mas eram sóbrias escunas
E ao perguntar quem eras O mar moveu seus navios Olharam-me as éguas no cio Voaram fêmeas sem sela
Enquanto me assombravas Os sais trocavam segredos Abraçava-me com medo Torpor, o que me falavas
Então comecei morrer Por tua mão de veludo Que me levava entre surdos No tênue amanhecer
Desmanches de beijo e vício Aroma de folha e chuva Teu sorriso atrás da curva Na ponta do precipício
Longe vai a noite maga Em seu palácio estranho Não te decifro és sonho A povoar minhas águas.
sábado, 6 de junho de 2009
PROSA CANORA foto Assis Melo
Meus pensamentos nem sei Vieram de estrelas tristes Invento o que não existe Para enganar minha alma
Invento a morte sem ossos Escrevo auroras em lápides Pastoro as águas da tarde Para tecer mais um dia
Em minha roca sombria Costuro uma blusa eterna Colchas claras de lanterna Para tecer mais um dia
Vou além da alta noite Além das cruzes em quadras Ausências extraviadas Meu verso em ti amanhece.
VIOLONCELOS DA FLORESTA
Violoncelos da floresta Tocam para o vazio Sentados sobre as madeiras De costas para o sombrio Quem os aplaude: ninguém O som que jamais se escuta Ora tocam para o nada Ora tocam para o nunca.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
foto Assis Melo
LAMPADÁRIO
Minha mãe anda distante meu pai a leva nos braços avisto lençóis no espaço os avós já vão mais longe
viajam todos num barco levados por um ciclone transitam vias sem nome que desembocam no frio
onde estarão os antigos antepassados , os tios, as asas do irmão sombrio tudo é poeira e palavra
haverá além do nada um povoado abstrato? já não me bastam retratos se não me cabe o silêncio.
domingo, 3 de maio de 2009
DA NATUREZA
Para e escuta o som dos edifícios que na calada hermértica da noite
crescem sem gritos sem alardes trágicos mas desvagar avançam nos vazios
não como crescem os vegetais marinhos nem as aéreas formas naturais
estas não crescem mais, nem arremessam a circunspecta flor dos arvoredos
mira contudo a mínima riqueza a que nos sobra entre os beirais do mundo
depois então contempla o céu de chumbo que estremece e cospe natureza
atenta para os muros decididos que sobem hirtos na precisão urgente
atenta para a vida simplesmente encontrarás partidos os caminhos
encontrarás desfeitos os recantos e diluídas todas as certezas
não acharás palavra para o espanto tampouco o verbo fácil da beleza
contudo a concretagem fria quer ser a absoluta engenharia
que a humanidade ávida engendra em perfurar os tetos do planeta
como se fossem todas baionetas as construções agudas e idênticas
qual avidez ascética e nociva - imensidão de pedras sucessivas
a conclusão dos ciclos predatórios virá então como virão as páginas
das profecias tensas inspiradas - pois sobre o nada restará o mundo.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
O RELINCHO
Ele relincha em madrugadas como um violoncelo verde e voa sobre os alqueires perdidos do seu sonho
relincha como o fogo que incendeia bíblias áridas cantigas de fundos de desertos
e chamará decerto as suas éguas nuas que plenas de desejo galopam sobre a Lua
imaginando o santo azul adão e apolíneo estrelo equino de sete patas mágicas
relincha trágicas histórias de amantes enquanto o mal do amor se alastra esvoaçante
e atinge a calmaria dos céus inalternados cavalos falos movimentando o mundo.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
O MEU ESTRANHO AMOR
Um espectro que passa enquanto chora Por minha ausência ele se consome
E quando chega vem como quem some E bate as asas universo afora
É o meu estranho amor que longe mora E dorme no altar da cabeceira
Quando me ama arde sem fogueira Para partir na arca da memória
Foge com o sol e leva nossa estória Tão docemente me acena uma vertigem
Sequencia de montanhas impossíveis Escarpas adversas giratórias
Quando ele chega o mundo é uma sala acesa O seu sorriso ofusca a cena da aurora
Não tarda ele se cala e vai embora Para morar na plácida tristeza.
ESCULTURA
Esculpe-me o mundo Esculpe-me Como se A uma pedra Cada vez Mais ponta E fria Cada vez Mais lança E funda
Aponta-me o mundo Aponta-me Como se A um lápis Fino Cada vez Mais cego E cínico Como A escrita De um sangue
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
TEMPO
Diante de mim Os relógios disparam Seus picos velozes
O mês é uma nuvem que inunda meu corpo Em rápidas luas
As ruas viajam Em pássaros súbitos De asas ventadas
Perseguem-me estradas Atrás de meus passos Que saltam à frente
Atrás vem o mundo Seus mapas pintados Trocando de luzes
Pedaços de corpos Apressam-me em pernas De longas passadas
Janelas expressas Assistem caladas Com os braços pousados
E enquanto disparo Na fuga incorpórea Ao rumo do nada
Eu vejo meu outro Deitado na relva Das rochas cansadas.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
PONTOS CARDEAIS
A onda desfaz-se em rios Desordens da imensidão Por que me trai coração A confundir meu caminho?
Se a leste sou claridade Loquaz jardim de planície A oeste serei mais triste Na curvatura da tarde
O sul de invernos lunares Me quer sob seus tentáculos Afaga-me em seu casaco Ascende uma tempestade
Norte, sigo a jovem estrela Às margens do rastro escuro Tudo é silêncio. Futuro. Avisto uma cruz acesa.
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
A CHAMA SECRETA
Apareço nesta noite como um sol de asas Venho dos pólos desmaiados e das florestas em brasa Quando ardo sou uma espécie que agoniza Quando sorrio é porque a grande árvore floresce
Anunciam-me os reis guardados e estamos num gueto Mulheres descalças de seios de vento me embalam Sou o beijo que elas já não pedem O calor de seus ventres sem enredo A cidade sonhada, o país estrelado, o lar aquecido, O primeiro e o último filho
Sou a lanterna do cão sem olhos
Novos livros me inventam, revoluções me transformam Mas passo pelos corredores do mar Como um navio eterno E a minha linguagem é a beleza das estrelas Que atravessa os séculos
Sou o menino sagrado que riscou o céu Para a paz sem riscos ... a chama secreta que acenderá as lareiras das casas do inverno.
domingo, 14 de dezembro de 2008
B A L A D A P A R A U M F A N T A SMA
Teus olhos vitrais de inverno Desnudam meu corpo em vôo Estás distante és tão terno Se te aproximas eu morro Ao ver-te longe e isento De pé sobre um muro frágil Consigo amar-te em silêncio Porquanto ainda és miragem
Se vens como tempestade Para açoitar meu vestido Não virás como o amigo Mas como as ervas daninhas Não me cante ladainhas Faça-me sinfonias Abraços em profundezas Cantos de noite fria E se por hora és momento Acúleo, praias de cruz Tua mão não me conduz Se não te alcanço, te invento
No lugar de tua pedra Estendo uma nuvem parda Ordeno um céu de baladas Para acordar teu fantasma Giro a lua em seis dragões Para dizer-te segredos Rabisco novos enredos Em tua floresta pálida
Viro páginas de insônia Tentando escrever-te estrelas Alimento o cão vazio Que dorme em tua soleira.
sábado, 6 de dezembro de 2008
ANTES D0 PRINCÍPIO Para Arthur
Antes do princípio era uma casa sem portas.
O mar deitava-se como um cão de guarda E esperava o mundo, seu primeiro cérebro
Deus não tinha patas, nem chifres, nem seios Era um pulmão fechado numa caixa sem sangue
Então nada existia nem os vermes das estrelas Nem a luz, nem as trevas, só olhos esporádicos
Antes do antes ainda sem presságios Um mapa escrito por santos do futuro:
Um frágil muro qual linha obscura A separar o verbo das portas da loucura.
*Geração Estrela- Rio de Janeiro, Ed Paz e Terra 1975 (orelha Moacyr Félix) *Flor do Milênio – Rio de Janeiro, Ed Civilização Brasileira, 1981. (prefácio Moacyr Félix) *Canções de Acender a Noite – Rio de Janeiro, Ed Civilização Brasileira, 1982. (Prefácio João Paes Loureiro) *AEquação da Noite – Rio de Janeiro, Ed Philobiblion, 1985. (Prefácio Pedro Lyra) *Ponto Zero – Rio de Janeiro, Ed Globo, 1987. (Prefácio Antônio Houaiss e posfácio Olga Savary) *O Inventor de Enigmas – Rio de Janeiro, Ed José Olympio, 1989. (Prefácio Ivan Junqueira) *Invenção para uma Velha Musa – Rio de Janeiro, Ed José Olympio, 1990. (Prefácio Nelson Werneck Sodré) *Teatro dos Elementos & Outros Poemas – Rio de Janeiro, Ed 7Letras, 1993. ( Prefácio Rachel de Queiroz) *Cantares de Amor e Abismo – Rio de Janeiro, Ed 7Letras, 1995. (Prefácio Carlos Emílio Corrêa Lima) *Poesia Reunida – Rio de Janeiro, Ediouro, 2002. (Organização Sérgio Fonta) *Lampadário – Rio de Janeiro, Ed. 7Letras, 2008 (pref. Alexei Bueno)
ROMANCE
*O Insólito Festim – Rio de Janeiro, Ed Nova Fronteira, 1994. (Prefácio Rachel de Queiroz) *O Violoncelo Verde – Rio de Janeiro, Ed Civilização Brasileira, 1997. (Prefácio Sérgio Viotti) *Memórias da Montanha – Rio de Janeiro, Ediouro, 2006.
PRÊMIOS
**Prêmio Guararapes de Poesia, União Brasileira de Escritores, 1987 **Prêmio União Brasileira de Escritores- melhor autor jovem, 1988 **Prêmio Nacional de Literatura do PEN Club do Brasil, poesia (Prêmio Luiza Claudio de Souza), 1990 **Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte),1990 **Prêmio Olavo Bilac, poesia, Academia Brasileira de Letras – ABL, 1991 **Prêmio José Marti de Literatura, Conjunto de Obra, Casa Cuba- Brasil, 1995 **Prêmio Nacional de Literatura do PEN Club do Brasil, romance (Prêmio Luiza Claudio de Souza), 1995 **Prêmio Alejandro José Cabassa, romance, União Brasileira de Escritores, 1995 **Prêmio Yeda Schmaltz, UBE, poesia, 2002 **Prêmio José Picanço Siqueira, Memória Romanceada, União Brasileira de Escritores, 2007 **Prêmio Cecília Meireles de Poesia, da União Brasileira de Escritores, 2008 **Prêmio ABL de Poesia 2009